O diretor-geral da OIT, Gilbert F. Houngbo, abriu a 114ª sessão da Conferência Internacional do Trabalho (CIT) com um apelo para que as pessoas sejam colocadas no centro da revolução da inteligência artificial (IA), enfatizando que o futuro do trabalho dependerá não apenas dos avanços tecnológicos, mas também das políticas, instituições e do diálogo social que moldam seus impactos na vida das pessoas.
“O futuro do trabalho não será determinado apenas pela tecnologia, mas também pelas políticas, instituições e diálogo social que o orientam.”, afirmou Gilbert F. Houngbo em seu discurso de abertura.
Com base nas conclusões de seu relatório à Conferência, Um Momento de Escolha: Aproveitar o Potencial da Inteligência Artificial para o Trabalho Decente (A Moment of Choice: Harnessing Artificial Intelligence for Decent Work), o diretor-geral defendeu uma abordagem centrada nas pessoas para a inteligência artificial e destacou uma agenda estratégica estruturada em torno de quatro pilares: direitos, emprego e competências, proteção social e diálogo social.
Houngbo ressaltou que trabalhadores e trabalhadoras em todo o mundo devem se capazes de se beneficiar dos ganhos de produtividade gerados pela inteligência artificial. “Esses ganhos precisam ser distribuídos de forma justa, por meio de melhores salários, proteção trabalhista mais robusta e um crescimento mais inclusivo”, disse, acrescentando que “a negociação coletiva será essencial, juntamente com uma governança da IA baseada na transparência, na responsabilização e na supervisão humana”.
“As escolhas que fizermos hoje determinarão se a IA ampliará as oportunidades e a prosperidade compartilhada ou se aprofundará as desigualdades e a insegurança”, enfatizou ele.
Houngbo situou esses desafios no contexto de uma economia global marcada por crescentes incertezas e por múltiplas pressões sobre os empregos e os meios de subsistência.
“Nos reunimos em um momento de profunda incerteza. A economia global continua frágil e a crise no Oriente Médio emergiu como uma importante fonte de risco para trabalhadores, empresas e comunidades”, afirmou Houngbo. “Marítimos que transitam pelo Estreito de Ormuz, trabalhadores migrantes nos países do Golfo, trabalhadores agrícolas no sul do Líbano e trabalhadores e empresas de diversos setores no Irã estão entre os mais diretamente afetados.”
De acordo com as estimativas mais recentes da OIT, em um cenário de choque prolongado nos preços do petróleo, o total de horas trabalhadas no mundo poderá cair, ainda este ano, o equivalente a 14 milhões de empregos em tempo integral, chegando a 38 milhões de empregos em tempo integral em 2027. As perdas de renda do trabalho poderão alcançar até US$ 3 trilhões até 2027, com impactos particularmente severos nos Estados Árabes e efeitos indiretos em toda a região da Ásia e do Pacífico.
A Conferência Internacional do Trabalho reúne anualmente representantes de governos, empregadores e trabalhadores dos 187 Estados-membros da OIT para debater uma ampla gama de temas com impactos de longo prazo sobre o mundo do trabalho.
O Comitê de Elaboração de Normas da Conferência realizará a segunda discussão sobre trabalho decente na economia de plataformas, com vistas à adoção de novas normas internacionais do trabalho. Caso sejam aprovadas, essas normas serão as primeiras voltadas especificamente para os impactos da digitalização no mundo do trabalho.
O Comitê, composto por representantes de governos, empregadores e trabalhadores, examinará os textos de um projeto de Convenção e de uma Recomendação que abrangem uma série de temas, incluindo a promoção do emprego e a proteção de trabalhadores e trabalhadoras de plataformas digitais. O Comitê também analisará disposições preliminares relacionadas ao uso de sistemas automatizados utilizados pelas plataformas digitais de trabalho.
O Comitê de Discussão Geral abordará a igualdade de gênero no mundo do trabalho, examinando as barreiras estruturais que continuam a limitar as oportunidades para as mulheres e as políticas necessárias para garantir que as transições tecnológica, ambiental e demográfica contribuam para mercados de trabalho mais igualitários e inclusivos.
O Comitê de Discussão Recorrente terá como foco o diálogo social e o tripartismo, examinando como uma cooperação mais estreita entre governos, empregadores e trabalhadores pode contribuir para enfrentar os desafios da transformação digital, das mudanças demográficas e do aumento das desigualdades, ao mesmo tempo em que fortalece a governança do mercado de trabalho e promove a justiça social.
O Comitê de Aplicação de Normas examinará o Relatório de 2026 da Comissão de Peritos para a Aplicação de Convenções e Recomendações (Relatório III (A)), que inclui o Relatório Geral e as observações sobre a aplicação das Convenções ratificadas. O Comitê também discutirá a pesquisa General Survey on Employment and decent work for peace and resilience.
Em seu primeiro dia, a Conferência elegeu Juan Castillo, ministro do Trabalho e da Seguridade Social do Uruguai, como presidente. Sua Excelência a Embaixadora Nahida Sobhan, de Bangladesh, Kristen Kaufman, dos Estados Unidos, e Gerardo Martínez, da Argentina, foram eleitos vice-presidentes, representando, respectivamente, os governos, os empregadores e os trabalhadores.
A 114ª Conferência Internacional do Trabalho está sendo realizada em Genebra e seguirá até 12 de junho de 2026.